Muito se tem falado nos últimos tempos sobre evacuação interna de doentes, e, na maior parte das vezes, de forma superficial e sem a profundidade necessária face a uma matéria de interesse tão relevante, cujo tratamento carecia e carece de um olhar mais abrangente, menos reducionista e sério.
Falar de evacuações de doentes apenas se circunscrevendo a reserva e transporte em aviões de transporte civil de passageiros, é não ter mínima ideia de uma política de saúde num contexto sanitário que o país atravessa, como também é manifestamente insuficiente apresentar como solução a simples aquisição de um avião devidamente equipado para transporte de doentes evacuados.
Cabo Verde mudou, e muitos teimam em não se darem conta da ocorrência dessa mudança, e que impõe políticas adequadas para responder aos desafios deste novo tempo.
Ora, no domínio da saúde ocorreu uma mudança no perfil epidemiológico em que as doenças não transmissíveis têm o predomínio em relação às transmissíveis. Os padrões comportamentais, a alimentação, o estilo de vida se impuseram no nosso quotidiano, e se a esses for acrescentado o aumento crescente de esperança de vida, necessária e compreensivelmente abriu-se o caminho para emergência, de forma exponencial, de doenças que requerem outros meios de respostas.
Infelizmente entre nós, sempre que a questão das evacuações vêm à tona, aparecem associadas a casos ocorridos num ou noutro lugar, e na maior parte das vezes, a questão é colocada numa ótica propagandística ou de aproveitamento político da situação, e não emergente de uma análise cuidada para responder aos aspetos centrais de uma política de saúde sintonizada com as necessidade do nosso tempo.
Para um país que tem aspirações a ser um grande recetor de turistas, um grande centro de prestação de serviço internacional, incluindo um hub-aéreo, não pode estar tão descurado em matéria de serviços emergência médica, quer a nível hospitalar quer a nível pré-hospitalar.
O país precisa ser dotado de unidades de cuidados intensivos, pelo menos nos dois hospitais centrais, devidamente equipadas, incluindo meios de suportes de vida avançados, bem como o pessoal necessário e treinado para atuar nessas situações emergenciais.
Do mesmo modo, se coloca a questão, a meu ver incontornável, quanto a criação de um serviço de emergência médica pré-hospitalar, com pessoal próprio devidamente treinado, e com meios adequados como ambulâncias e helicópteros equipados com meios avançados de suportes de vida para atuar em vários teatros de operações nomeadamente:
1) Evacuação de doentes entre as estruturas de saúde, sobretudo quando se esgota a capacidade de resposta de uma estrutura de grau inferior;
2) Intervenções médicas pré-hospitalares às vítimas de doença súbita como ataque cardíaco, trombose e outras situações de emergência;
3) Evacuação em situações de catástrofes, acidentes graves, como as transito, de aviação, afogamento, tremor de terra ou inundações.
Para responder a essas frentes, muitos países criaram o serviço de emergência médica pré-hospitalar, no quadro do serviço nacional de saúde, cuja principal função é o de funcionar como posto avançado dos serviços de urgência hospitalares ou de unidades de cuidados intensivos.
Para alguns céticos, vão dizer certamente que é uma coisa muito onerosa e que Cabo Verde não dispõe de recursos para sustentar tais serviços, hoje já tão necessários, como imprescindíveis, para evitar muitas mortes que poderiam não acontecer no nosso país.
Contrariamente à posição dos céticos, para aqueles que acreditam no futuro e ousam desafia-lo, é necessário pensar sobre a questão e projetar como se consegue ter uma solução dessas de pé.
O primeiro passo, é o de elaborar um plano de criação de serviços de emergência médica, contendo dimensão dos serviços, necessidades de recursos humanos e o seu treinamento, meios e equipamentos necessários às unidades emergenciais, recursos financeiros e formas de financiamento.
O plano poderia ser faseado, deferindo o investimento na sua realização por ciclos, tendo sempre presente a instalação do básico e sua evolução de forma consistente e coerente.
Muitos países adotaram como forma de financiar os serviços de emergência médica pré-hospitalar, para além do financiamento público, receitas provenientes de participação em percentagem dos produtos financeiros, resultantes de contratos de seguros de ramos Vida, Doença e de Veículos, assegurando assim a sustentabilidade do serviço.
Outra fonte de receitas do serviço é o pagamento de transporte de doentes, e esse encargo é assumido pela previdência social. No nosso caso, essa responsabilidade deveria ser atribuída ao INPS e deveria constar das prestações imediatas.
A importância de um serviço de emergência médica hospitalar e pré-hospitalar é incalculável, e uma decisão sobre essa matéria não poderá ser mais adiada.
Basta imaginarmos um cenário em que um chefe de estado estrangeiro de visita ao nosso país ser acometido de uma doença súbita lá para os lados de Tarrafal de Santiago, e precisasse de uma evacuação de emergência: seria simplesmente uma afronta. Não haveria resposta que a situação exigiria, e ficaríamos muito mal na fotografia: não temos nem ambulâncias devidamente equipadas nem helicópteros apetrechados e pessoal de emergência médica treinado para prestar tal assistência. Mas o problema não se punha apenas na prestação de cuidados pré-hospitalar, pois o nosso país ainda não investiu nas unidades de cuidados intensivos nos hospitais centrais com meios, equipamentos e pessoal próprio, altamente especializados, para se dedicar especificamente a tarefas emergenciais.
O nosso banco de urgência só tem capacidade para responder até um certo nível de urgência médica: não tem nem capacidade, nem meios e equipamentos para responder às situações mais complexas.
Mais: para um país que muito se investe em receber turismo de cruzeiros, mesmo que por umas horas de permanência no nosso território, não deve descurar essa componente de prestações de cuidados de saúde, pois, é muito frequente acontecer situações emergenciais durante a viagem em que os barcos aportam o porto mais próximo para deixar o passageiro, e o transporte do doente em condições de segurança emergencial é fundamental para que possamos ser referenciados positivamente em relação a outras situações e casos que possam vir a ocorrer.
Os nossos governantes não podem ignorar isso, e se um dia tiverem um episódio de tipo emergencial, vão experimentar na pele o que é morrer por falta de meios ou melhor: como não se evita uma morte evitável.
Portanto, a evacuação de um doente é apenas um aspeto, num contexto mais vasto de prestação de cuidados médicos, que poderá ir de intervenções pré-hospitalar à hospitalar, encadeado num quadro concertado e em que cada ator sabe o que fazer e porque fazer em cada momento.