Na primeira entrevista concedida à TCV após a vitória do PAICV nas eleições legislativas de 17 de maio, Francisco Carvalho traçou as linhas gerais da futura governação, defendendo reformas económicas, aposta no setor primário, melhoria dos transportes interilhas e maior diálogo institucional
O líder do PAICV afirmou que já tem o governo preparado e garantiu que os primeiros resultados poderão ser visíveis nos primeiros cem dias de mandato.
“Maioria absoluta”
Francisco Carvalho abriu a entrevista afirmando que a vitória do PAICV representa uma “maioria absoluta de cabo-verdianos”, incluindo residentes no país e na diáspora. O presidente do partido sublinhou que a campanha terminou e que chegou o momento de cumprir os compromissos assumidos junto dos eleitores.
Segundo disse, as promessas eleitorais foram sustentadas por contas já feitas pela equipa do partido, insistindo que haverá margem orçamental para implementar as medidas anunciadas.
Cortes na despesa do Estado para financiar medidas sociais
Entre os principais pontos abordados esteve a questão do financiamento das políticas anunciadas durante a campanha, especialmente na área da saúde.
Francisco Carvalho defendeu que o futuro governo pretende reduzir aquilo que chamou de “gorduras do Estado”, através de cortes em viagens, estudos e consultorias, honorários, número de membros do governo e outras despesas públicas, e argumentou que essas reduções permitirão financiar medidas sociais consideradas prioritárias, acrescentando que o partido pretende “ir muito mais longe” do que aquilo que foi apresentado durante a campanha.
Governo já está preparado
Questionado sobre a composição do futuro executivo, Francisco Carvalho afirmou que o governo “já está todo feito”, embora tenha recusado avançar nomes.
Segundo explicou, o executivo será composto por uma combinação de experiência, competência e renovação geracional. O presidente do PAICV defendeu um modelo de governação inclusivo, alinhado com o lema “Cabo Verde para todos”.
Aposta no setor primário
Ao abordar os desafios económicos, Francisco Carvalho considerou que Cabo Verde sempre viveu em contextos difíceis e criticou o discurso centrado na crise permanente.
O presidente do PAICV afirmou que uma das prioridades será reduzir a dependência das importações e reforçar a produção nacional, sobretudo através da agricultura, pescas e pecuária. Nesse sentido, anunciou a criação do “Banco Agro Azul”, destinado ao financiamento do setor primário, defendendo que essa aposta poderá gerar emprego de forma imediata, sobretudo no mundo rural.
Segundo precisou, o abandono do interior e das zonas rurais terá provocado a perda de milhares de postos de trabalho nos últimos anos, contribuindo para a emigração dos jovens.
Emprego jovem e incentivo ao empreendedorismo
O líder do PAICV destacou ainda a intenção de expandir para todo o país o modelo “Praia Empreende”, implementado durante a sua gestão na Câmara Municipal da Praia.
A iniciativa prevê financiamento e acompanhamento técnico para projetos de jovens empreendedores. Francisco Carvalho defendeu também a instalação de fábricas em Cabo Verde, incluindo unidades de mobiliário, argumentando que o país precisa de diversificar a economia e criar empregos.
Transportes interilhas como prioridade estratégica
Outro dos temas centrais da entrevista foi o problema dos transportes interilhas, com Francisco Carvalho a considerar que os transportes são “centrais” para o desenvolvimento do país, incluindo para o crescimento do turismo e para a fixação das populações nas ilhas.
O presidente do PAICV revelou que existem propostas de operadores privados para assegurar ligações marítimas a 500 escudos e ligações aéreas a cinco mil escudos em determinados percursos interilhas.
Segundo afirmou, o futuro governo pretende também investir na aquisição de mais embarcações e melhorar a acessibilidade entre as ilhas.
Relação com o MpD e diálogo institucional
Sobre o relacionamento político com o MpD, Francisco Carvalho afirmou que o PAICV tem “obrigação de dialogar”, sobretudo em matérias que exigem consensos parlamentares. No entanto, acusou o MpD de criar obstáculos durante a sua experiência enquanto presidente da Câmara Municipal da Praia, defendendo existir uma diferença entre o “teatro do diálogo” e a prática efetiva de diálogo político. Apesar disso, garantiu abertura para manter medidas consideradas positivas da governação cessante.
Primeiros resultados “nos cem dias”
Francisco Carvalho garantiu que os primeiros resultados da sua governação deverão começar a ser sentidos nos primeiros cem dias após a tomada de posse.
O líder do PAICV afirmou que pretende iniciar imediatamente a implementação das medidas anunciadas durante a campanha.
Verdade, proximidade e continuidade no bairro
Ao refletir sobre o seu percurso político, Francisco Carvalho atribuiu o seu sucesso eleitoral à “verdade” e à proximidade com as pessoas.
O futuro primeiro-ministro indicou que pretende continuar a viver no bairro de Vila Nova, na Praia, onde reside atualmente, afirmando que os cargos políticos não devem afastar os dirigentes da realidade social da população.
Diáspora terá “papel central”
Na parte final da entrevista, Francisco Carvalho destacou o papel da diáspora no desenvolvimento de Cabo Verde. Ele afirmou que pretende retomar políticas voltadas para as comunidades emigradas, incluindo a Estratégia Nacional de Migração e Desenvolvimento, criada anteriormente pelo PAICV.
Entre as medidas anunciadas está a criação de uma Agência de Mobilidade, destinada a reforçar o acompanhamento das comunidades cabo-verdianas no exterior e estreitar as relações entre a diáspora e o país.
Reveja aqui a entrevista à TCV.