Celebrar o advogado é também defender uma JUSTIÇA DIGNA, CÉLERE E FUNCIONAL. E é precisamente por amor à Justiça que não podemos continuar calados perante a dramática situação vivida no Tribunal da Comarca do Fogo, sobretudo no domínio cível.
UM ÚNICO JUIZ CÍVEL PARA TODO O CONCELHO DE S.FILIPE e SANTA CATARINA JÁ NÃO CONSEGUE RESPONDER À REALIDADE ACTUAL.
Não se trata de crítica pessoal ao meritíssimo magistrado em funções — que seguramente trabalha com enorme esforço, dedicação e sentido de missão — mas sim de reconhecer uma realidade estrutural que já ultrapassou todos os limites do razoável: o volume processual tornou-se humanamente impossível para um só juízo.
Há processos cíveis e ações contra o próprio Estado que entraram no Tribunal ainda no tempo em que o PAICV governava Cabo Verde. O país mudou politicamente, esse partido passou uma década inteira na oposição e agora regressa novamente ao Governo… mas muitos desses processos continuam sem sentença final, jazendo ainda nos tribunais do S.FILIPE à espera de decisão.
É impossível não refletir sobre isto.
Veja-se, por exemplo, processos complexos ligados ao anel rodoviário e a questões de propriedade em Almada, litígios de enorme relevância patrimonial e social, envolvendo cidadãos, direitos reais, responsabilidade do Estado e interesse público. Muitos desses casos atravessaram anos e anos sem solução definitiva, apesar da sua importância para as partes e para a própria credibilidade da Justiça.
Assim não podemos continuar.
JUSTIÇA TARDIA É INJUSTIÇA.
Não podemos normalizar a ideia de que um cidadão tenha de esperar dez, quinze ou mais anos para ver apreciado um conflito relacionado com a sua propriedade, o seu património, a sua família ou os seus direitos fundamentais.
S.FILIPE e SANTA CATARINA cresceram . Cresceram os litígios, os conflitos sucessórios, os processos laborais, as disputas sobre terrenos, as ações administrativas e as ações de responsabilidade civil contra o Estado. Mas a estrutura judicial permaneceu praticamente a mesma.
Por isso, neste Dia do Advogado, deixamos um apelo firme ao próximo Ministro ou Ministra da Justiça do novo Governo da República:
O FOGO PRECISA, COM URGÊNCIA E SEM MAIS ADIAMENTOS, DE UM NOVO JUÍZO CÍVEL, COM TODOS OS MEIOS HUMANOS, ADMINISTRATIVOS E TECNOLÓGICOS NECESSÁRIOS AO SEU FUNCIONAMENTO.
Não basta nomear magistrados sem criar estrutura adequada. É indispensável reforçar secretarias judiciais, oficiais de justiça, apoio administrativo, digitalização processual, equipamentos informáticos e condições dignas de trabalho.
Um único juiz cível, por mais competente, dedicado e trabalhador que seja, jamais conseguirá sozinho vencer o gigantesco atraso acumulado ao longo de tantos anos.
E aqui deixamos também uma palavra especial ao nosso colega e amigo Clóvis Silva, apontado como potencial Ministro da Justiça. Conhecendo profundamente a realidade do Fogo e sendo homem do Direito, acreditamos que não esquecerá esta causa essencial para a dignidade da Justiça cabo-verdiana.
O novo Governo terá inevitavelmente de enfrentar estes processos antigos, muitos deles herdados de ciclos governativos passados, e precisamente por isso torna-se ainda mais urgente investir seriamente na capacidade de resposta dos tribunais.
A Justiça não pode continuar a caminhar lentamente enquanto os problemas dos cidadãos envelhecem dentro dos arquivos judiciais.
Neste Dia do Advogado, renovamos o nosso compromisso com o Estado de Direito Democrático, com a independência dos tribunais, com a dignidade da advocacia e, sobretudo, com o DIREITO DOS CIDADÃOS A UMA JUSTIÇA CÉLERE, EFICAZ E HUMANA.
Porque sem Justiça funcional não há verdadeira democracia, não há segurança jurídica e não há desenvolvimento.
Feliz Dia do Advogado a todos os colegas que, apesar das dificuldades, continuam diariamente a lutar pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos de Cabo Verde.