Nos últimos dias, ouvimos declarações políticas tão rocambolescas quanto inacreditáveis!
Foram ataques persistentes — verdadeiros mísseis de longo alcance — violentos, perversos e oriundos das mais altas instâncias. E, perante esta subversão e rebelião constitucional e democrática, não se ouviu uma viva alma entre os democratas a dar qualquer resposta. Foi um silêncio magistral.
Esses ataques foram proferidos por altos dirigentes do antigo regime contra o MpD, contra os seus dirigentes históricos, contra todos os democratas, contra a Igreja Católica e, especialmente, contra o já falecido bispo Dom Paulino Évora. Foram ataques manchados de ódio, prenhes de distorções e de mentiras grosseiras.
Como sempre, o palco foi a rádio e a televisão públicas. E desta vez houve mais um palco: o último Congresso do PAICV.
Foram rajadas quase mortíferas contra a democracia e contra a Constituição da República de 1992. Ao mesmo tempo, assistimos a uma promoção descarada e inédita do regime do partido único. Para os promotores dessa ignóbil propaganda, o regime que deixou um saldo de mortes, que perseguiu e torturou o povo das ilhas através da sanguinária Polícia Política, dos Tribunais Populares e das Milícias Populares — que cortou literalmente a liberdade ao povo durante quinze negros anos — tornou-se, agora, o orgulho da Nação (?). Tornou-se o orgulho de todos os militantes do PAICV.
Significa isso que devemos curvar-nos, numa espécie de rendição e vassalagem ao estilo norte-coreano, e proclamar vivas à ditadura, à tortura, à perseguição do PAIGC e PAICV, e ao cerco de quinze anos à liberdade. Até onde vai esse descaramento, minha gente?
O meu espanto não é apenas com as mentiras descaradas da parte dos inimigos da democracia. Eu sempre soube que uma parte dessa gente (do PAICV) nunca depôs verdadeiramente as suas armas ideológicas. Nunca desistiram da ideologia que formatou os seus pensamentos e as suas vidas. Eu sabia — e o disse em várias ocasiões e por diferentes formas. Eu e muitos de nós sabíamos.
Todos sabemos que não foi por acaso que desapareceram os arquivos da antiga Polícia Política. Mas ninguém fala desse desaparecimento curioso e misterioso. O ódio visível e persistente dessa gente é dirigido, também, aos símbolos da II República: o hino, a bandeira e as armas nacionais.
Imaginem o desespero do profeta-mor do antigo regime ao afirmar, com convicção absurda, que “a bandeira do antigo regime nada tinha a ver com a da Guiné-Bissau; foi inspirada na bandeira da Etiópia”! Esse ódio estende-se também à Constituição da República de 1992. Sem dúvida: no dia em que tiverem poder, o hino, a bandeira e as armas nacionais serão deitados abaixo — e os velhos símbolos serão ressuscitados.
Muitos torcem o nariz ao que digo. Espero, sinceramente, estar errado. Mas sei que alguns deles foram “democratas” de circunstância — forçados a sê-lo, à martelada. Claro que não falo de todos os dirigentes e militantes do PAICV. Mas há quem nunca tenha aceitado genuinamente a liberdade nem a democracia.
Durante muito tempo fingiram “gostar” da Constituição de 1992, toleraram com má vontade o 13 de Janeiro de 1991 e nunca esconderam o ódio que nutrem pelos democratas — especialmente pelos dirigentes do 13 de Janeiro, pela Igreja Católica e por Dom Paulino Évora.
Não foi por acaso que não aprovaram a Constituição de 1992, nem foi por acaso que fizeram de tudo — até práticas de fraude eleitoral — para ressuscitar politicamente. Tudo isso com a cumplicidade silenciosa de alguns dos nossos próprios democratas.
E agora, cantando e rindo, eles voltam a dar as cartas. Sorriem e aproveitam-se do momento de fraqueza da nossa democracia e da ausência dos verdadeiros democratas da cena política.
É por isso que, alimentados e inspirados pela frouxidão democrática, quando aparece um discurso como o do deputado Celso Ribeiro, reagem com raiva, como leões famintos, como dogues alemães em fúria, disparando contra todos os que se atrevam a tocar nas suas feridas.
E também não foi por acaso que aproveitaram o centenário e o quinquagenário para desencadear a maior intoxicação política de sempre.
Afirmo e reafirmo: a democracia cabo-verdiana vive hoje os seus piores momentos, e isso constitui um grande perigo para o futuro das nossas ilhas.
A estratégia para fazer recuar a democracia não é de hoje. Ela ficou ainda mais evidente nas declarações recentes dos antigos e novos dirigentes do PAICV. E as velhas raposas sabem muito bem escolher o momento certo para atacar.
Fazer recuar a democracia é o verdadeiro objetivo deles. A ideologia nunca foi reciclada — o que querem reciclar é a história.
Lembrem-se: quando, por pressão interna e externa, abriram a política, não tinham como objetivo a construção de um sistema democrático pluralista, nem um Estado de Direito, nem a separação entre partido e Estado. Governavam o país há quatro anos sem uma Constituição da República.
Essa gente não muda!
No início da abertura, defenderam um sistema de partido único com roupagem democrática. Diziam que só o PAICV — “partido histórico da independência” — poderia concorrer às eleições legislativas. Essa mentalidade nunca foi abandonada por certos protagonistas do antigo regime.
E agora, cheios de coragem, afirmam publicamente:
“O partido único não pode ser uma vergonha; é, antes, um orgulho da Nação!”
Para eles, este é o momento. Não há democratas suficientes a barrar-lhes o caminho, e os poucos que ousam enfrentá-los são metidos nas guilhotinas das redes sociais, atacados pelas milícias digitais pagas para esse serviço.
Mesmo na oposição, o PAICV domina a máquina pública, protege os seus, condiciona e destrói os seus opositores.